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Barcelona Espanha
Miguel de Cervantes a definiu como um arquivo da
cortesia. O escritor Washington Irving, de lugar para desfrutar da
verdadeira poesia da existência. Para Jack Lang, ex-ministro da Cultura
da França, é uma cidade para espíritos livres e corações
aventureiros. Em 2 mil anos de história, Barcelona já inspirou poetas,
músicos, cineastas, arquitetos e inflamou paixões ilustres. No entanto,
é no rosto de anônimos que chegam à capital da Catalunha pela primeira
vez que transparece a melhor definição de Barcelona: a alegria, diante
do mosaico de cores, arte, história e civilidade que a compõem.
O clima temperado da cidade - considerada a principal
metrópole do Mediterrâneo - e a enorme quantidade de atrações ao ar
livre são um convite a um mergulho nas fervilhantes calles de Barcelona.
Mas não pense em sair caminhando, tendo apenas o mapa como guia. Um
mínimo de organização é necessário para desbravar a terra do genial
arquiteto Antoni Gaudí (1852-1926), que incrustou na Catalunha os
preceitos do modernismo. Antes de tudo, o melhor a fazer é criar um
roteiro diretamente proporcional à sua condição física.
Barcelona se divide em duas partes: a cidade velha, que
se estende da praça da Catalunha até o porto, e o Eixample, construído
depois que o terceiro conjunto de muralhas da cidade foi destruído, em
1860, e que concentra as principais amostras da arquitetura moderna
espanhola. Bem do alto, o Eixample - projetado pelo engenheiro Ildefons
Cerdà - parece um tabuleiro de xadrez. É a prova de que a cidade cresceu
de forma ordenada, harmônica, sem traumas.
Se não faltar disposição ao visitante, Barcelona
reserva uma programação básica que consome pelo menos três dias.
Incluindo a noite, uma das mais quentes da Europa. O ponto de partida
quase sempre é Las Ramblas, via que é uma espécie de termômetro e
centro nervoso da cidade. É difícil, porém, encontrar temperaturas
baixas em Las Ramblas. Invariavelmente, uma multidão de visitantes e
catalães formam uma colorida e cosmopolita pororoca humana.
De Las Ramblas, você pode escolher que caminho tomar.
Quer respirar os ares culturais da cidade? Então parta para a Fundação
Joan Miró, a Casa-museu Gaudí, o Centro Cultural La Pedrera, os museus
Picasso, de Arte Contemporânea e Nacional da Catalunha, entre vários
outros. São cerca de 50 espaços culturais espalhados por Barcelona.
Se o assunto for natureza, a capital catalã se orgulha
de ter uma magnífica coleção de parques, ideais para quem preferir
ambientes arejados. Nesse roteiro ao ar livre, destacam-se o Parque Güell
- uma das obras-primas de Gaudí -, a Praça da Catalunha, o Parque da
Ciutadella, Port Vell, Barceloneta - com sua majestosa visão do Mar
Mediterrâneo -, e o Porto Olímpico, um dos legados dos Jogos Olímpicos
de 1992. No roteiro clássico de Barcelona, o Bairro Gótico e a
monumental Catedral da Sagrada Família são indispensáveis.
Contudo, antes de saçaricar pelas ruas e avenidas de
Barcelona, há algumas dicas importantes a seguir. Primeira: como atrai
turistas como formiga no bolo, a cidade não é um exemplo de segurança.
Cuidado com carteiras, bolsas e objetos de valor. Não que você vá dar
de cara com um arrastão. Mas sempre há malandros de olho em turistas
desavisados.
Outro conselho: não espere encontrar demonstrações
de simpatia explícita dos catalães. Em geral, eles não são de muita
conversa. Motoristas de táxi, então, são um caso à parte. Nem adianta
falar em Rivaldo, Romário, etc. Ah, e confira sempre seu troco antes de
sair do táxi.
Mas esses são detalhes que não ofuscam de forma
alguma o brilho de Barcelona. Uma cidade que, nos próximos 2 mil anos,
ainda vai inspirar hordas de artistas e levar alegria ao semblante de
milhões de visitantes.
Os catalães costumam dizer que se Barcelona não tem a
quantidade de museus e galerias de Paris, Londres e até mesmo de Madri,
compensa com o dobro de imaginação e capacidade de sonhar. Modéstia
pura. A vida cultural da capital da Catalunha já vale o preço da viagem.
São aproximadamente 50 espaços abrigando exposições permanentes e
temporárias de diversos segmentos da arte, da história às artes
plásticas, passando por curiosidades como os museus Erótico e do
Chocolate.
As estrelas nesse roteiro, porém, são indiscutíveis:
o Museu Picasso e a Fundação Joan Miró. O Museu Picasso fica nas
redondezas do Bairro Gótico, na Carrer Montcada, 15. É uma viela meio
escondida. Ali, está guardada uma das coleções mais importantes do
mestre espanhol, doada por ele entre 1963 e 1970. As obras abrangem o
período de formação do artista, a chamada época azul. Por isso, não
espere encontrar as telas mais famosas de Picasso, como a Guernica. Mas a
visita é indispensável, principalmente para ver a série "As
Meninas", interpretação da obra de Velázquez - exposta no Museu do
Prado, em Madri.
A passagem pela Fundação Miró requer mais tempo,
principalmente em virtude das dimensões da galeria. A mostra é um
passeio pela vida e obra do artista catalão, com esculturas, cartas,
esboços, gravações e quadros. O projeto da fundação foi concebido
pelo arquiteto Josep Lluis Sert e inaugurado em 1975.
Se a fome de cultura não estiver saciada, há dicas de
museus por toda a cidade. O Museu Nacional de Arte da Catalunha, no Parque
de Montjuc, abriga uma belíssima mostra de arte romântica,
principalmente catalã. A Fundação Francisco Godia, na Carrer Valência,
também é outra boa pedida para amantes da arte. A exposição
proporciona uma incursão por um período que abrange do século 12 até
os dias atuais. Destaque para as mais de 500 peças de cerâmica espanhola
produzidas entre os séculos 14 e 19.
Em árabe, rambla significa "leito do rio". A
via mais agitada de Barcelona é exatamente isso. Um rio multicolorido
cheio de gente de todas as nacionalidades, credos e idades. Um rio que
não seca jamais. Las Ramblas é, com certeza, o espaço mais democrático
da capital catalã. Ali misturam-se turistas, vendedores, artistas
representando estátuas, faquires, músicos, ciganas e um ou outro batedor
de carteira. Regra número um na Rambla: mantenha o olho aberto.
Las Ramblas nasce na Praça da Catalunha, corta o
Bairro Gótico e desemboca no antigo porto. O percurso é um sonho para
perdulários. De artesanato, quadros, flores e frutas, passando por
comidas típicas, vende-se de tudo na Ramblas. Não deixe de entrar na
Boqueria, uma espécie de mercado municipal de Barcelona. Se bater o
cansaço, há várias mesinhas com guarda-sóis, onde se pode beber alguma
coisa e pedir um tapa (lanche típico espanhol). É interessante ficar
sentado, observando a variada "fauna" que habita a área.
Depois do agito, é hora de história e contemplação.
Aproveite a proximidade e mergulhe no fascinante e sombrio Bairro Gótico.
O local reúne o principal conjunto de construções medievais da cidade,
que até meados do século 19 esteve cercado por muralhas. É um labirinto
de ruas estreitas, que testemunharam 2 mil anos de história. Ali, não
deixe de olhar para cima. Só assim é possível admirar obras majestosas
como a Catedral Gótica, construída de 1298 a 1450 e que abriga a cripta
de Santa Eulália.
Caminhar no Bairro Gótico ao lado de um bom guia é
recomendável para quem curte história e quer compreender a importância
de cada degrau, portal e gárgulas espalhados pelas construções. O
turismo de Barcelona oferece serviços de visitas guiadas, em inglês e
espanhol, aos sábados e domingos.
A viagem pela antigüidade catalã inclui uma parada no
Museu de História de Barcelona, que conserva parte do passado milenar da
cidade, como ruínas romanas que ocupam 4 mil metros quadrados no subsolo
do Bairro Gótico.
Em seguida, a Praça do Rei é passagem obrigatória. O
local, principal núcleo político do bairro, abriga o Saló del Tinell,
suntuoso salão onde os reis catalães receberam Cristóvão Colombo
quando retornou da primeira viagem à América.
Depois das sombras, a luz. Do Bairro Gótico, volte a
Las Ramblas e siga até Port Vell, onde você será recepcionado pelo
Monumento a Colombo - que conta com um elevador panorâmico. A mudança de
visual é radical. Agora, um emaranhado de enormes iates toma conta da
paisagem, tendo o Mediterrâneo ao fundo. Aliás, Barcelona está
intimamente ligada ao mar. Seu porto é o terceiro em importância
comercial da região e escala preferida de cruzeiros.
Percorrendo a orla - pontilhada de bares e restaurantes
-, chega-se a Barceloneta e ao Porto Olímpico. Se o estômago reclamar,
pare num dos restaurantes do complexo comercial Maremagnum para saborear a
maravilhosa culinária catalã. Uma boa dica é o tradicional L'elx (Moll
d'Espanya), que serve paellas e o delicioso arroz negro, feito à base de
tinta de lula. Peça de entrada o pão de tomate, com bastante azeite.
Meia-noite de sábado. É hora de cair na noite
catalã. Você pensa, sem saber exatamente para onde ir. O recepcionista
do hotel indica a casa noturna Luz de Gas (Carrer Muntaner, 246). Chegando
lá, a decepção: o lugar está praticamente vazio. Inconformado, você
pergunta para uma barwomen onde está todo mundo. Ela sorri e responde:
"As pessoas só chegam a partir das 2h30". Duas horas depois, o
lugar está lotado, maioria absoluta de gente bonita, com show rolando no
palco. Depois, um DJ entra em ação. Assim é a noite de Barcelona:
ninguém dorme antes das 5 da madrugada.
Há uma enorme variedade de opções de bares e boates
de alta qualidade na cidade. Entre os exemplos estão o agitadíssimo Up
and Down (Carrer Numancia, 593), o Fibra Optica (Carrer Beethoven, 9), o
L'Ovella Negra (Carrer Sitjes, 5), bar freqüentado por estudantes, e o
famoso Mirablau (Plaza Dr. Andreu, s/nº).
Se preferir algo mais típico, há as casas com
apresentação de dança flamenca. O Poble Espanyol (av. Marqués de
Comillas, s/nº) abriga o Tablao de Carmen, onde o espetáculo ocorre de
terça a domingo, a partir das 20 horas. Outra opção é a Taberna
Flamenca (Carrer Art, 12).
Mas Barcelona oferece muito mais: restaurantes e
hotéis de primeira linha para todos os bolsos. Um bom jantar é algo
fácil de encontrar na cidade. Uma dica é o L'Hostal de Rita (Carrer
Aragó, 279), cujo ambiente combina um ligeiro requinte à maravilhosa
culinária mediterrânea. Experimente uma entrada de carpaccio de salmão
com torradas e queijo fresco e, como prato principal, dorada a la espalda.
Como dá para notar, é possível comer bem sem gastar muito em Barcelona.
Conforto também está em toda parte na capital
catalã, que dispõe de 187 hotéis, seis deles de cinco estrelas. Se a
sua opção for passar dias de realeza em Barcelona, então vá direto
para o tradicional Hotel Ritz. Ali, já se hospedaram celebridades como
Sophia Loren, Ava Gardner, Salvador Dalí, Woody Allen, Claudia Schiffer e
Naomi Campbell, entre outros.
O Ritz, que faz parte da rede The Leading Hotels of the
World, está localizado na Gran Via de les Corts, no centro de Barcelona,
próximo das Ramblas e do Paseo de Grácia, avenida que reúne as melhores
butiques da cidade. Inaugurado em 1919, o Ritz foi, durante décadas,
ponto de encontro da alta sociedade catalã. Até hoje, o hotel conserva
intacta sua aura de glamur. Viver dias de celebridade, é claro, tem seu
preço.
Menos história, muito luxo. Assim é o Hotel Rey Juan
Carlos 1º, localizado na Avenida Diagonal. Inaugurado em 1992, pelo
próprio rei da Espanha, durante os Jogos Olímpicos de Barcelona, o hotel
impressiona pela suntuosidade. Na realidade, o lugar é um complexo que
reúne centros de convenções, um vasto jardim, pista de cooper,
piscinas, um moderno fitness center, bares e restaurantes.
Aliás, o restaurante The Garden, no jardim do hotel,
é perfeito para quem não dispensa sofisticação. O serviço é
impecável. Experimente a entrada de salada de lagosta com molho de
framboesa e vinagrete, seguido de filés de linguado com compota de cebola
e molho de tomilho. De sobremesa, a dica é a torta de chocolate com sopa
de framboesa.
Para os brasileiros, o Rey Juan Carlos 1º tem uma
característica especial, que talvez se sobreponha a qualquer luxo: da
janela, é possível ver, a cerca de 500 metros, o Estádio Camp Nou, do
Barcelona, com toda a cidade ao fundo. Em dia de jogo, a visão é
magnífica. Para apoiar o time da casa, o hotel projeta em sua fachada o
símbolo do Barça com palavras de incentivo.
É difícil descobrir os limites entre o arquiteto
Gaudí e Barcelona, sua cidade natal. O estilo de Gaudí pode ser visto
nitidamente no Parque Güell, uma extravagância em art nouveau espalhada
numa área de 2 mil metros quadrados. No parque, a simbiose entre natureza
e arquitetura está em toda parte, seja na interação de árvores e
alicerces de pedra, seja em extensos bancos que lembram ondas do mar. No
lugar também fica a casa onde o arquiteto viveu entre 1906 e 1926 e que
hoje abriga um pequeno museu.
No entanto, a vertigem causada pelo Parque Güell é
brincadeira perto da sensação de quem pára diante da gigantesca Sagrada
Família, maior cartão-postal de Barcelona. A catedral - que parece
extraída de um cenário de ficção científica - foi a obra da vida de
Gaudí, que morreu sem concluí-la. A igreja passou pelas mãos de vários
arquitetos, que trouxeram estilos próprios. Alguns causaram polêmica. O
escultor Subirach, por exemplo, acrescentou à fachada oeste imagens
cubistas, incluindo um Cristo nu. Estima-se que a catedral esteja
concluída em 25 anos.
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